O mérito do irreal e o desprezo pelo concreto


Dizem que viver é aprender e hoje aprendi! 

Acabei de defender o trabalho final da minha pós-graduação. Um projeto com mais de uma década de prática pedagógica, de provas dadas, de impacto mensurável na vida de alunos reais. Um projeto que não nasceu de um PowerPoint bem apresentado, mas do chão das salas de aula, dos corredores de uma escola que não tem grades nem muros, em que se vivemos todos os dias, contra o abandono, contra a apatia, contra o sistema.

Mas no final da avaliação, olho à volta e vejo colegas a receber classificações mais elevadas por projetos que ainda não saíram do papel, ideias bonitas, por vezes impossíveis de implementar num contexto real. 

E pergunto-me: estará o ensino superior, esse farol da ciência e do pensamento crítico, a valorizar mais a estética da ideia do que a substância da evidência?

Parece que sim. Parece que, na ânsia de aplaudir o “inovador”, esquecemos o “eficaz”. Num país onde o insucesso escolar ainda pesa, onde o ensino profissional é frequentemente olhado de soslaio, onde há alunos a quem a escola deve mais do que um currículo, optamos por premiar teorias não testadas. E pior: deixamos na sombra os profissionais que, com persistência e sacrifício, constroem alternativas reais para estes alunos.

Ironia das ironias: o arguente que avaliou o meu trabalho, com toda a autoridade conferida pelo seu lugar na academia, nunca pisou o terreno do ensino profissional. Não conhece as suas especificidades, as suas dores, as suas conquistas silenciosas. E, no entanto, julga e comenta de forma pessoal “– no meu entender, deveria ser mais ter aprofundado mais a introdução”. Avalia e atribui notas. Decide o valor de um percurso que, ao contrário de muitos outros, não é hipotético, é vivido.

É este o país onde a escola se pensa em gabinetes, mas raramente se escuta quem nela vive. Onde se fala de inovação como se fosse sinónimo de novidade, e não de transformação com impacto. Onde se avaliam sonhos que ainda não enfrentaram o teste da realidade e se desvalorizam os projetos que resistiram a todas as provações.

A educação em Portugal precisa de um choque de humildade. De parar de premiar o que soa bem e começar a reconhecer o que funciona. De escutar os professores que não se limitam a dar aulas, mas que, contra tudo e todos, constroem caminhos para alunos que o sistema estava pronto a esquecer.

Se continuarmos a valorizar mais a ideia do que a prática, mais a promessa do que a prova, estaremos a ensinar às futuras gerações que o que conta não é o que se faz — é o que se aparenta. E esse, convenhamos, é o mais perigoso de todos os currículos.

Talvez seja tempo de reaprender a reconhecer o mérito. Mesmo que ele não venha embrulhado em discursos vazios ou em powerpoints com gráficos coloridos. Mesmo que venha sujo de giz, cansado de reuniões, e com o olhar firme de quem, em vez de prometer o futuro, já o anda a construir há anos.

Afinal de contas, quem quer faz, quem não quer arranja desculpas!

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