Todos nós perguntamos às crianças, com um sorriso condescendente, “O que queres ser quando fores grande?”. Como se a infância fosse apenas uma sala de espera, um ensaio para uma vida que só começa lá adiante. Como se o agora não tivesse valor, como se os sonhos de hoje fossem descartáveis. E elas, com os olhos ainda cheios de mundos por inventar, respondem “médico”, “astronauta”, “youtuber”, enquanto nós, adultos, agimos já a encaixá-las nas gavetas do futuro. Mas e se a pergunta estiver errada? E se, em vez de as empurrarmos para um horizonte distante, lhes perguntássemos: “O que queres ser agora?”.
A educação, esse monstro sagrado, está ancorada num erro fundamental: trata as crianças como projetos incompletos, como argila à espera de ser moldada para o mercado de trabalho. Enchemos as salas de aula com tabelas, testes e currículos que gritam “prepara-te para o futuro!”. Mas que futuro é esse, num mundo que muda a cada segundo? Ensinamos-lhes a decorar respostas para perguntas que já não existem, enquanto as suas mentes, vibrantes e curiosas, definham num sistema que valoriza a obediência acima da imaginação. E depois, espantamo-nos quando crescem ansiosas, desmotivadas, desconectadas.
As neurociências, essa lanterna que ilumina os segredos do cérebro, tem muito a dizer sobre isto, estudos mostram que a infância é um período de plasticidade neuronal extraordinária, quando o cérebro forma conexões a uma velocidade vertiginosa. Segundo o neurocientista Stanislas Dehaene (2020), autor de How We Learn, as crianças aprendem melhor quando estão emocionalmente envolvidas, quando exploram com curiosidade e quando a aprendizagem é relevante para o presente. Mas o que fazemos? Sufocamo-las com tarefas repetitivas e abstratas, ignorando que o córtex pré-frontal, responsável pela atenção e pela autorregulação, ainda está em desenvolvimento. Resultado? Crianças que associam a escola ao tédio, não à descoberta.
Pior ainda, estamos a roubar-lhes a identidade do agora. A psicóloga Alison Gopnik, em The Philosophical Baby (2009), defende que as crianças têm uma capacidade única para o pensamento divergente, a habilidade de imaginar múltiplas possibilidades, de criar sem medo do erro. Mas, ao focarmo-nos no “quando fores grande”, matamos essa chama. Dizemos-lhes, implicitamente, que o que são hoje não basta. Que o pintor de cinco anos, o contador de histórias de sete, o inventor de jogos de dez, não têm valor a menos que se traduzam num emprego daqui a duas décadas. E assim, formamos adultos que esquecem como sonhar, que trocam paixão por segurança, que vivem presos a um futuro que nunca chega.
É preciso uma revolução. Não amanhã, não quando o ministério decidir ou quando o orçamento permitir. Agora. A educação deve ser um espelho do presente, um espaço onde as crianças sejam convidadas a ser quem são, não quem achamos que devem ser. Imagina uma escola onde, em vez de perguntarmos “O que queres ser?”, perguntemos “O que te faz feliz hoje? O que queres criar? O que queres explorar?”. Onde o currículo seja flexível, onde a arte, a música, o jogo tenham tanto peso quanto a matemática. Onde o erro seja celebrado como prova de coragem, não como falha.
A neurociência confirma esta mudança, um estudo de Beaty et al. (2018), publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences, mostrou que ambientes que estimulam a criatividade aumentam a conectividade entre redes cerebrais associadas à imaginação e à resolução de problemas. Resumindo: quando damos às crianças liberdade para serem quem são agora, estamos a fortalecer os seus cérebros para o futuro, sem as forçar a viver para ele. Mas isso exige coragem. Exige professores que desafiem o sistema, pais que resistam à pressão das notas, políticos que vejam além dos votos.
E nós, que fazemos? Continuamos a perguntar “O que queres ser quando fores grande?”, porque é mais fácil. Porque mudar dá trabalho. Porque questionar o sistema é desconfortável. Mas o preço da inércia é alto: gerações de crianças que crescem a acreditar que o seu valor está no que serão, não no que são. Que aprendem a correr antes de saberem andar. Que chegam à idade adulta sem saber quem são, porque nunca lhes demos espaço para descobrir.
Então, hoje, olha para uma criança: a tua, a do vizinho, a que passa na rua e faz a pergunta certa: “O que queres ser agora?”. E depois, luta por um sistema que honre a resposta. Porque o futuro não se constrói com promessas, mas com o que fazemos hoje.
Quem quer faz, quem não quer arranja desculpas.

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