Há uma traição silenciosa a acontecer nas salas de aula, e não, não vem só do sistema. Vem de dentro, do coração de alguns professores que, outrora sonhadores, se deixaram apagar. Lembro-me da Ana, numa escola encostada ao Tejo, com os olhos ainda a brilhar quando falava de ser professora. Miúda, imaginava-se a guiar almas, a abrir horizontes, a semear curiosidade. Mas, algures no caminho, algo mudou. Não foi só o peso dos currículos ou a burocracia; foi ela. Escolheu render-se. Escolheu odiar as aulas e transformar-se numa funcionária de horários, uma sombra que cumpre programas como quem lê um teleponto, sem alma, sem chama.
Dói dizer isto, mas a culpa também é deles – dos professores que deixaram de querer ensinar. Sonharam com salas cheias de mentes em ebulição, mas agora preferem a segurança de uma checklist. Aversos à inovação, fogem de novas pedagogias como quem foge de um incêndio. Ensinar competências essenciais? Desenvolver o pensamento crítico, a criatividade, a resiliência dos alunos? Isso dá trabalho, exige paixão, coragem para sair da zona de conforto. É mais fácil ser um pivot, debitante de conteúdos, do que um mestre que provoca, que inspira, que transforma. E assim, as aulas tornam-se uma prisão, não porque o sistema as fez assim, mas porque eles próprios escolheram as algemas.
Não me entendam mal: o sistema não é inocente. Lança fardos pesados, com metas absurdas e papéis que roubam tempo. Mas quem decide apagar o fogo interior? Quem opta por ser um autómato, cumpridor de horários, em vez de um rebelde da educação? Precisamos de pessoas apaixonadas, que vejam cada aluno como um universo por explorar, que transformem a sala de aula num palco vivo, não numa linha de montagem. Precisamos de professores que não se contentem em sobreviver, mas que vivam o ensino como um vício, um desafio que os faz acordar de manhã com o coração aos saltos.
Aos professores que se deixaram apagar, lanço-vos um desafio: reacendam-se. Deixem de culpar o sistema por tudo e assumam a vossa parte. Inovem, experimentem, arrisquem falhar. Ensinem como se cada aula fosse uma revolução. Porque, no fundo, cada aluno que sai da vossa sala sem brilho nos olhos é um pedaço do vosso sonho que morreu. E tu, que estás a ler isto, o que vais fazer com o teu fogo? A educação não espera por funcionários; clama por rebeldes que amem ensinar.
Quem quer faz, quem não quer arranja desculpas.
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