Em Portugal, onde as escolas se erguem como fortalezas do conhecimento, mas por vezes se fecham como castelos medievais, a educação clama por uma revolução silenciosa. Não falo de reformas governamentais ou de orçamentos milionários, mas de uma mudança no coração da profissão docente: a urgência de os professores articularem as suas matérias com as diferentes disciplinas, abraçando a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade como ferramentas de transformação. É tempo de deixar para trás as atividades efémeras, aquelas que enchem o calendário escolar mas esvaziam o impacto real, marcadores de livros coloridos para o Dia do Livro, crachás com slogans para o Dia do Ambiente, ou umas tostas com queijo magro distribuídas no Dia Mundial da Alimentação. Essas iniciativas, por mais bem-intencionadas, são como fogos de artifício: iluminam por instantes, mas não alteram o céu noturno.
Imagine-se um professor de História
que, em vez de confinar os alunos a datas e batalhas isoladas, une forças com o
colega de Biologia para explorar a evolução das sociedades através das mudanças
climáticas. Ou uma aula de Matemática que se entrelaça com a Economia,
analisando dados reais sobre desigualdades sociais em Portugal, convidando
especialistas de fora para debates transdisciplinares que transcendem os
manuais. A interdisciplinaridade não é um luxo académico; é uma necessidade
vital num mundo interconectado, onde problemas como as alterações climáticas ou
a desigualdade não respeitam fronteiras disciplinares. Em Portugal, onde o
sistema educativo ainda luta com taxas de abandono escolar e com a relevância
do currículo para o mercado de trabalho, esta abordagem poderia ser o
catalisador para uma educação mais viva, mais pertinente.
Mas vamos mais longe: os
professores precisam de ambicionar projetos de elevado impacto, daqueles que
mudam comportamentos e enraízam a escola na comunidade. Em vez de eventos
isolados, pensemos em iniciativas que envolvam a localidade, a região, o país e
até o plano transnacional. Um grupo de alunos de uma escola em Lisboa poderia
colaborar com comunidades rurais no Alentejo para desenvolver um projeto de
agricultura sustentável, integrando ciências, geografia e educação cívica. Ou,
num âmbito maior, parcerias com escolas europeias para combater a desinformação
online, unindo línguas, tecnologias e ética. Estes projetos não são utópicos;
são essenciais para que os alunos se sintam agentes de mudança, intervindo em
dimensões maiores que as quatro paredes da sala de aula.
Recordo-me de uma visita a uma
escola no Porto, onde os professores, cansados do rotina, lançaram um projeto
de monitorização ambiental no Rio Douro. Os alunos, de diferentes anos e
disciplinas, recolheram dados, analisaram poluição e propuseram soluções à
autarquia local. O impacto? Não só mudaram comportamentos – como a redução do
uso de plásticos na comunidade, mas também envolveram empresas regionais e até
atraíram atenção nacional. Os jovens saíram dali mais participativos, focados
no resultado, com um sentido de propósito que nenhum marcador de livros poderia
proporcionar. E os professores? Viram-se como líderes de uma rede que se
estende para além da escola, influenciando a comunidade alargada.
É esta a postura que urge repensar:
o professor não como guardião de conhecimentos isolados, mas como arquiteto de
mudanças sociais. Em Portugal, onde a educação pública enfrenta desafios como a
burocracia excessiva e a desmotivação docente, ambicionar o impacto
transnacional, através de programas como o Erasmus+ ou parcerias com ONGs
internacionais, pode ser o antídoto. Colocar os alunos no centro de projetos de
grande escala não só os torna mais envolvidos, mas também prepara cidadãos
globais, capazes de enfrentar os desafios do século XXI.
Senhores professores, o mundo lá
fora espera por vós. Deixem as tostas magras no refeitório e abram as portas da
escola para a verdadeira transformação. A educação não se mede em crachás, mas
em vidas mudadas.
Quem quer faz, que não quer arranja desculpas.
Comentários
Enviar um comentário