Em 2025, a OCDE lançou um desafio que ecoa como um trovão nos corredores das escolas portuguesas: What should teachers teach and students learn in a world of powerful AI? Num mundo onde a inteligência artificial (IA) já não é ficção científica, mas uma força que molda o trabalho, a convivência e até o modo como pensamos, a educação em Portugal enfrenta uma encruzilhada. Continuamos a ensinar como no século XX, ou ousamos reinventar o que significa aprender? Esta crónica é um convite à reflexão e, quem sabe, a uma revolução silenciosa.
Imagine uma sala de aula em Lisboa, Porto ou numa vila do interior alentejano. Os alunos, de olhos curiosos, não estão apenas a decorar datas ou fórmulas. Em vez disso, debatem o ruído excessivo no bairro, investigam como as bicicletas podem ser mais seguras ou questionam o impacto das alterações climáticas na sua comunidade. Estas não são aulas tradicionais, mas experiências de aprendizagem que respondem às perguntas que realmente importam: “Como funciona?” e “Como sabes?”. Este é o coração da proposta da OCDE: formar “competent outsiders”, cidadãos que, sem serem cientistas, têm a literacia científica para questionar, avaliar e participar nos debates que definem o nosso futuro.
Em Portugal, onde a educação ainda carrega o peso de currículos rígidos e de uma cultura de “ensinar para o teste”, esta visão é ao mesmo tempo desafiadora e inspiradora. A OCDE sugere que o foco deve mudar: menos factos isolados, mais formas de pensar. Num mundo onde a IA pode calcular, traduzir ou até criar arte em segundos, o que nos torna humanos é a capacidade de perguntar, de duvidar, de criar ligações entre ideias. Os alunos portugueses não precisam de memorizar enciclopédias; precisam de aprender a distinguir ciência de opinião, a compreender sistemas complexos, como o clima ou a saúde pública, e a navegar dilemas éticos, como os que a IA levanta. Devem ser curiosos, flexíveis e, acima de tudo, socialmente conscientes.
Mas como chegamos lá? A resposta não está em mais manuais ou exames. Está em transformar a sala de aula num espaço de descoberta. Em vez de disciplinas estanques, imagine um currículo onde a biologia se cruza com a arte, onde a matemática dialoga com os desafios do quotidiano, como calcular o impacto de uma nova ciclovia. A OCDE defende uma educação baseada em inquérito, onde os alunos exploram questões que os tocam diretamente. Em Portugal, isto poderia significar projetos sobre a desertificação no Alentejo, a poluição no Tejo ou a sustentabilidade das pescas no Algarve. É dar voz aos alunos, permitir-lhes escolher temas que os apaixonem, e usar a avaliação não para os classificar, mas para os guiar.
E há algo mais, algo que ressoa profundamente na alma portuguesa: a alegria de aprender. Num país onde a poesia de Camões e a música de Amália nos lembram o valor da emoção, a educação deve abraçar o prazer da descoberta. Aprender não pode ser uma tarefa árdua, mas uma aventura que alimenta a identidade de cada aluno. As artes, as aprendizagens informais, um passeio pelo jardim botânico, uma visita a uma associação local, devem ter tanto peso quanto as equações ou os textos clássicos. É esta mistura de rigor e criatividade que pode tornar a educação portuguesa vibrante e relevante.
Claro que há obstáculos. A rigidez curricular, a falta de formação de professores para estas novas abordagens, os recursos limitados em muitas escolas. Mas Portugal já provou que sabe reinventar-se. Olhemos para o passado: a aposta na literacia nos anos 80, a integração na Europa, a modernização tecnológica. Hoje, o desafio é maior, mas não impossível. Precisamos de currículos mais flexíveis, de professores apoiados para ensinar de forma inovadora, de escolas que sejam laboratórios de ideias e não fábricas de notas.
Numa era de IA poderosa, a educação em Portugal tem a oportunidade de formar cidadãos que não se limitam a sobreviver à mudança, mas que a moldam com ética, curiosidade e coragem. É uma revolução que não precisa de megafones, mas de pequenas transformações: uma aula onde se debate o impacto da IA na privacidade, um projeto escolar que resolve um problema local, um aluno que descobre que aprender pode ser tão emocionante como um golo na final da Champions. A OCDE aponta o caminho; cabe-nos a nós, portugueses, caminhar. E, quem sabe, fazer da educação o nosso próximo fado, não de saudade, mas de futuro.
Comentários
Enviar um comentário