Há qualquer coisa de triste a acontecer nas nossas salas de aula portuguesas, uma espécie de epidemia que não faz barulho, mas deixa marcas: a tirania dos slides.
Lembram-se daqueles professores que enchiam o quadro de giz, que contavam histórias, que faziam a matéria ganhar vida com um olhar ou um gesto?
Esses parecem estar em vias de extinção. Agora, o que vemos é o brilho frio de um projetor e um desfile interminável de slides que mais parecem manuais de instruções mal projetados.
Não me interprem mal, o PowerPoint não é o vilão. O problema é o que ele esconde. Professores que, em vez de dominarem o que ensinam, se agarram aos slides como se fossem bóias de salvação. Lêem o que está no ecrã, palavra por palavra, como se fossem adolescentes nervosos numa apresentação de grupo.
E os alunos? Ficam ali, a olhar para o vazio, a tirar fotos aos slides com o telemóvel, já a pensar no teste onde não vomitar aquela informação toda sem a digerirem.
Um professor sério não precisa de um guião digital. Se sabe do que fala, o quadro, a voz, uma história bem contada chegam e sobram. Slides? Tudo bem, mas que sejam um extra, não o espetáculo principal. Uma imagem que desperta, um esquema simples, uma palavra chave, isso sim. Não um testamento em Arial 12, com gifs animados que matam qualquer vontade de aprender.
E depois há a sala de aula, aquele cubículo onde a educação parece estar presa. Porquê? O mundo é a melhor escola. Uma aula de biologia num parque, vale por mil diagramas no ecrã. Uma lição de história na rua, nos castelos, nos museus, faz o passado respirar. Até a matemática, adjetivada de seca, ganha cor quando a aula é feira no mercado, local onde é possível viver todas as fórmulas. A vida e o mundo à nossa volta melhor, ensina melhor que qualquer slide.
O que me parte o coração é ver a preguiça intelectual que os slides muitas vezes mascaram. Um professor que só lê o que está no ecrã não está a ensinar, está a fazer um karaoke de informação. E os alunos? Desligam os fatores atencionais, e limitam-se a decorar, tentam fazer o teste e esquecem. No fim, o que fica? Nada. apenas uma geração que sabe guardar no computador os slides, mas não sabe pensar, questionar, viver o que aprendem.
Está na hora de mudar. Desligar o projetor, olhar nos olhos, levar a escola para a rua. Porque o melhor aula do mundo é no próprio mundo. Quem quer faz, quem não quer arranja desculpas.
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