O silêncio das salas de aula. Uma educação que teima em não evoluir


Acabo de ver uma sala de uma escola secundária, em pleno ano de 2026, onde os alunos entram em fila indiana e em silêncio absoluto, sentando-se em disposições retas e impessoais, reminiscentes de um autocarro em hora de ponta. Qualquer sussurro é um crime, qualquer movimento uma insubordinação. E, pasme-se, quando um colega professor entra por engano nessa mesma sala, olha em volta e exclama: "Ah, pensei que não estava aqui ninguém!" Porque o silêncio é tal que se poderia ouvir o ar condicionado a funcionar. E esta, é a turma modelo, a que os professores exibem como troféu e referencia: "Estes sim, são os bons alunos!" Será? Ou estaremos perante um anacronismo pedagógico que mais parece saído de um romance de Dickens do que de uma escola moderna?

Não é ficção, é realidade. Acontece todos os dias em escolas portuguesas, onde o modelo pedagógico ainda se agarra a um autoritarismo obsoleto, herdado de épocas em que a educação era sinónimo de disciplina militar e não de desenvolvimento humano. Mas algo vai mal, profundamente mal, quando confundimos obediência cega com excelência académica. A ciência educacional há muito que nos avisa: este tipo de abordagem reprime a criatividade e a motivação intrínseca, conceitos chave na teoria da autodeterminação de Deci e Ryan, que defendem que a verdadeira aprendizagem surge quando os alunos se sentem autónomos, competentes e conectados. Em vez de fomentar um ambiente onde o erro é parte do processo, como Piaget nos ensinou com a sua epistemologia genética, onde o conhecimento se constrói através da interação ativa com o mundo –, estamos a criar gerações de jovens que associam a escola a um lugar de supressão, não de exploração.

Vejamos outro exemplo, igualmente verídico e desconcertante: numa aula de ciências, grupos de alunos trabalham afincadamente numa experiência prática, daqueles momentos raros em que a teoria ganha vida e os olhos brilham com curiosidade genuína. Uma aluna, eufórica com a iminência do resultado imagine, o coração a bater forte, a mente a fervilhar de hipóteses, levanta-se para espreitar o tubo de ensaio do grupo vizinho. "Senta-te! Cala-te! Ou levas falta e vais para a rua!" ameaça a professora, repetidamente, como se o entusiasmo fosse uma ameaça ao ordem estabelecida. Aqui, o ridículo atinge o patético: estamos a punir a euforia natural da descoberta, o mesmo fogo que Vygotsky descrevia como essencial na zona de desenvolvimento proximal, onde a colaboração e o diálogo entre pares impulsionam o crescimento cognitivo. Estudos recentes, como os publicados na ultima edição do Journal of Educational Psychology, demonstram que ambientes pedagógicos ativos, com espaço para o movimento e a expressão emocional, melhoram não só a retenção de conhecimento, mas também o bem-estar psicológico dos alunos, reduzindo taxas de burnout e abandono escolar. Em Portugal, onde as estatísticas do PISA nos colocam consistentemente abaixo da média da OCDE em competências como o pensamento crítico e a resolução de problemas, insistir nesta pedagogia passiva é como tentar curar uma ferida com sal: agrava o problema.

A emergência de uma mudança no modelo pedagógico não é um capricho de académicos como eu, que dedicam vidas a investigar estas dinâmicas; é uma necessidade imperiosa, ditada pela evolução da sociedade. Vivemos numa era de inovação acelerada, onde o conhecimento não é estático, mas fluido, exigindo posturas professorais que incentivem a colaboração, a experimentação e a resiliência. Mudar a pedagogia significa abraçar abordagens como a aprendizagem baseada em projetos ou o flipped classroom, onde os alunos não são meros recetores, mas cocriadores do saber. A neurociência apoia isto: o cérebro aprende melhor quando envolvido emocionalmente, como mostram as pesquisas de Immordino-Yang sobre a importância das emoções na cognição. Professores que insistem no silêncio opressivo estão, inadvertidamente, a sabotar este processo, criando salas de aula que mais parecem prisões do que laboratórios de ideias.

E no entanto, resistimos. Por inércia, por medo do caos, por falta de formação contínua, que, aliás, é cronicamente insuficiente no nosso sistema educativo. Mas quem quer faz, quem não quer arranja desculpas.

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