O verdadeiro perigo está dentro das escolas, antes que o relógio chegue a zero

Sinto-me preocupado sobre o estado da educação em Portugal, porque a minha pátria, um sistema que parece ancorado num passado que já não nos serve. Como investigador,  profissional, mas acima de tudo cidadão, vejo com urgência a necessidade de uma transformação profunda no modelo pedagógico das escolas atuais. Não se trata de uma mera evolução, mas de uma emergência, uma mudança que brota da própria essência da sociedade que construímos. Os professores, esses guardiões do conhecimento, precisam de reinventar a sua postura, abandonando o papel de meros transmissores de informação para se tornarem facilitadores de experiências transformadoras. A pedagogia, outrora rígida e centrada no currículo padronizado, deve abraçar a flexibilidade, incorporando abordagens baseadas na neurociência cognitiva, que demonstram como o cérebro humano aprende melhor através de contextos reais e colaborativos, em vez de memorizações mecânicas.



Pensemos no Relógio do Juízo Final, essa metáfora científica mantida pela Bulletin of the Atomic Scientists, que nos avisa estar a meros noventa segundos da meia-noite, simbolizando o colapso iminente da civilização devido a ameaças como as alterações climáticas, as guerras nucleares e a desigualdade social. A educação, nesse relógio, é o ponteiro que podemos mover para trás, mas só com ações decisivas. Precisamos de estratégias concretas: projetos de intervenção que integrem a pedagogia ativa, inspirada nos trabalhos e cartilhas do passado, mas com futuro, de Jean Piaget sobre o construtivismo, onde os alunos constroem o conhecimento através da interação com o mundo, e de Lev Vygotsky, que afirma a zona de desenvolvimento proximal, exigindo que os educadores atuem como mediadores em diálogos coletivos. Imaginem escolas onde se desenham programas de mentoria intergeracional, unindo alunos, professores e comunidades em ações de impacto social, como projetos de sustentabilidade que não só ensinam ciência, mas fomentam a resiliência emocional, comprovada por estudos da psicologia positiva de Martin Seligman a reduzir o burnout e a aumentar a motivação intrínseca.

Os dados são, de facto, alarmantes. Relatórios da OCDE, como o PISA 2022, revelam que os alunos portugueses continuam abaixo da média em competências de leitura e matemática, com taxas de abandono escolar que rondam os dez por cento, agravadas pela pandemia que expôs as fragilidades do ensino remoto. No entanto, a intenção de mudar é resiliente, visível nas iniciativas de base que surgem em escolas inovadoras, onde se aplicam metodologias de aprendizagem baseada em problemas e desafios reais, apoiadas por evidências científicas que mostram ganhos de até vinte por cento em retenção de conhecimento, segundo meta-análises publicadas no Journal of Educational Psychology. Confesso que me indigna ouvir, ainda hoje, falar de inovação ancorada em orientações com mais de uma década, como os Decretos-Lei 54 e 55 de 2018, que promovem a inclusão e a flexibilidade curricular, mas que, na prática, pouco avançaram devido à inércia institucional e profissional da educação. É como se estivéssemos a reinventar a roda sem a fazer rodar.

Pior ainda são os ecos nos corredores da educação, onde se sussurra que certos alunos não deveriam andar na escola, uma visão arcaica que ignora a diversidade neurocognitiva e as teorias da inteligência múltipla de Howard Gardner, que defendem que cada indivíduo aprende de forma única, e tem direito à educação. Aprendemos até ao último suspiro, como comprovam investigações em neuroplasticidade, que mostram o cérebro a formar novas conexões sinápticas ao longo da vida, mesmo na velhice. O verdadeiro problema reside em quem abandona o percurso de aprendizagem, nomeadamente muitos professores que, após quatro anos de formação universitária, se consideram profissionais completos, sem necessidade de atualização contínua. Há quarenta anos que alguns não pisam uma sala de aula como alunos, ignorando a revolução digital e as necessidades da sociedade do conhecimento.

Se a escolaridade obrigatória termina aos dezoito anos, talvez aí resida a raiz do mal: deveríamos conceber a educação como um compromisso vitalício, invertendo o modelo atual. Em vez de um sistema que expulsa os jovens para o mundo sem ferramentas para a aprendizagem autónoma, imaginemos um paradigma onde a escola é um hub de formação contínua, alinhado com o conceito de lifelong learning da UNESCO, que correlaciona a educação permanente com maiores índices de bem-estar social e económico, como demonstrado em estudos longitudinais na Escandinávia. O problema da nossa escola não está no exterior, nos orçamentos apertados ou nas famílias desestruturadas; o perigo mora dentro das suas paredes, onde rotinas obsoletas perpetuam desigualdades. Chego a pensar que as grades que cercam as escolas não as protegem de invasores, mas contêm o que de tóxico lá fermenta, mas que infelizmente não estão a impedir que se contamine o mundo lá fora. Algo vai decididamente mal, e urge agir antes que o batam as 12 badaladas, porque acredito que é com educação que poderemos inverter o tempo do Relógio do Juízo Final.

Porque afinal, quem quer faz, quem não quer arranja desculpas.

 

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