Recentemente veio-me à mente uma conversa com um colega professor. Ele, com o, espero, cansaço acumulado desabafou: "Há miúdos que simplesmente não deviam andar na escola" Aquelas palavras ecoaram em mim como um sinal de alarme, revelando uma fissura profunda no tecido da nossa educação. Vejo nesta atitude não apenas fadiga, mas uma urgência de mudança paradigmática. A educação, no seu cerne, deve ser um farol de inclusão, não um filtro seletivo que expulsa os que não se enquadram no molde tradicional.
Pensemos no que a ciência nos diz sobre neurodivergência. Condições como
o transtorno do défice de atenção e hiperatividade (TDAH) ou o espetro do
autismo não são defeitos, mas variações neurológicas que afetam cerca de 5 a 10
por cento da população escolar, segundo estudos da Organização Mundial de Saúde
e da Associação Americana de Psiquiatria. Estes alunos processam informação de
forma diferente: o cérebro neurodivergente opera com padrões de conectividade
sináptica únicos, como demonstrado por investigações em neuroimagem funcional,
onde se observa maior atividade em áreas como o córtex pré-frontal em tarefas
criativas, mas desafios na regulação executiva. Excluí-los não resolve nada;
pelo contrário, reforça ciclos de marginalização. A escola, como instituição
formativa, tem o dever de adaptar-se, recorrendo a estratégias baseadas em
evidências, como a diferenciação pedagógica ou o ensino baseado em forças, que,
conforme meta-análises publicadas no Journal of Educational Psychology, elevam
não só o desempenho dos neurodivergentes, mas também o da turma inteira,
fomentando empatia e resiliência coletiva.
E quanto aos comportamentos desviantes? Aqui, entramos no terreno da
psicologia comportamental e da sociologia educacional. Muitos destes alunos
exibem padrões disruptivos não por malícia inata, mas como resposta a traumas,
desigualdades socioeconómicas ou falhas no apoio familiar. Teorias como a de
Lev Vygotsky, com a sua zona de desenvolvimento proximal, sublinham que a aprendizagem
ocorre na interação social, onde o professor atua como mediador para expandir
capacidades. Ignorar isto e optar pela exclusão ignora dados robustos:
programas de intervenção comportamental positiva, como os baseados no modelo
PBIS (Positive Behavioral Interventions and Supports), reduzem incidentes
disruptivos em até 50 por cento, de acordo com relatórios do Departamento de
Educação dos Estados Unidos. A escola não é um clube privado para os
"bem-comportados", é um laboratório vivo onde se moldam cidadãos,
transformando impulsos desviantes em competências sociais através de reforço
positivo e modelagem, não de rejeição.
Esta emergência de mudança surge precisamente porque o sistema atual,
rígido e uniformizado, falha em abraçar a diversidade humana. Imaginem uma
orquestra onde só os violinistas afinados tocam: o som seria monótono,
empobrecido. Da mesma forma, uma educação inclusiva enriquece todos. Estudos
longitudinais, como os do Instituto Nacional de Saúde Mental, mostram que
alunos neurodivergentes em ambientes inclusivos desenvolvem maior autoeficácia
e menor risco de depressão na adultez, enquanto os neurotípicos ganham em
criatividade e tolerância. Não se trata de utopia; é ciência aplicada. Países
como a Finlândia, com as suas políticas de educação universal, provam que
investir em formação docente para lidar com diversidade leva a taxas de
abandono escolar próximas de zero e a um bem-estar societal superior.
No entanto, persiste a resistência, muitas vezes disfarçada de
pragmatismo. Professores desvocacionados, desmotivados, turmas numerosas,
despesas latentes... Sim, estes são obstáculos reais, mas não desculpas para
perpetuar exclusão. A verdadeira transformação exige compromisso: articulação e
intervisão, formação contínua em neurociência educacional, parcerias com
psicólogos escolares e currículos flexíveis que valorizem múltiplas
inteligências, como propõe Howard Gardner na sua teoria seminal, entre outros.
É tempo de reimaginar a escola como um ecossistema inclusivo, onde cada aluno,
independentemente do seu perfil neurológico ou comportamental, encontra espaço
para crescer. Porque ser professor não é só dar aulas!
Desta forma, quem quer faz, quem não quer arranja desculpas.
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