No coração de uma nação que se orgulha das suas raízes culturais e do legado de grandes pensadores, a educação em Portugal enfrenta um momento pivotal, uma espécie de encruzilhada onde o velho paradigma colide com a urgência de uma transformação profunda. Como investigador e académico na área da educação, observo com uma mistura de preocupação e esperança esta emergência de mudança, que não surge por acaso, mas como resposta a um sistema que, apesar dos seus méritos históricos, revela fissuras cada vez mais evidentes. É uma mudança emergente, impulsionada por dados empíricos e pela voz dos próprios intervenientes, que clama por uma reestruturação baseada em evidências científicas, capaz de restaurar a confiança e o bemestar nas salas de aula.
Pensemos na sensação de insegurança que assombra tantos alunos nas escolas portuguesas. De acordo com os inquéritos realizados pela InspeçãoGeral da Educação e Ciência, entre quinze e vinte e três por cento dos alunos do segundo e terceiro ciclos, bem como do ensino secundário, reportam sentirse inseguros no ambiente escolar. Estes números não são meras estatísticas frias; representam uma realidade psicossocial alarmante, ancorada em estudos da psicologia educacional que associam a insegurança a fatores como o bullying, a pressão académica excessiva e a falta de suporte emocional. Investigadores como Olweus, no seu modelo ecológico do bullying, explicam que este fenómeno não é isolado, mas resulta de interações entre o indivíduo, o grupo de pares e o contexto institucional. Em Portugal, esta insegurança reflete um desequilíbrio sistémico, onde a ausência de programas de intervenção baseados em evidências, como os protocolos de promoção da resiliência emocional propostos pela Organização Mundial da Saúde, agrava o problema. Alunos que se sentem ameaçados não conseguem concentrar-se na aprendizagem, pois o cérebro, sob stress crónico, ativa o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), formado pelo hipotálamo, a hipófise (pituitária) e as glândulas suprarrenais (adrenais), libertando cortisol em excesso, o que inibe a formação de memórias de longo prazo e compromete o desenvolvimento cognitivo, conforme demonstrado em meta análises publicadas na revista Educational Psychology Review.
Esta insegurança não é um acidente; é o sintoma de um sistema educacional que, apesar dos avanços na inclusão e na digitalização, ainda se debate com desigualdades socioeconómicas e com uma abordagem pedagógica por vezes rígida, que ignora os princípios da neurociência educacional. A teoria da aprendizagem social de Bandura sublinha que os alunos modelam comportamentos observados no ambiente escolar, e quando esse ambiente é permeado por tensão, perpetuase um ciclo vicioso de desmotivação e abandono. Em Portugal, os relatórios do Programa Internacional de Avaliação de Alunos da OCDE revelam que os nossos jovens apresentam níveis de ansiedade acima da média europeia, o que compromete não só o desempenho académico, mas também o desenvolvimento de competências socioemocionais essenciais para o século XXI. É imperativo, portanto, uma mudança emergente que integre abordagens holísticas, como a implementação de currículos baseados em competências, inspirados nos modelos finlandeses, onde o foco no bemestar do aluno resulta em taxas de insegurança inferiores a dez por cento.
Mas esta transformação não pode ser adiada por burocracias ou resistências conservadoras. Exige uma ação concertada, com investimentos em formação de professores ancorada em evidências científicas, como os programas de mindfulness que, segundo estudos randomizados controlados na revista Journal of School Psychology, reduzem em até trinta por cento os níveis de stress nos alunos. É tempo de reimaginar as escolas como espaços de segurança e inovação, onde a tecnologia apoia, em vez de substituir, a interação humana, e onde a avaliação não se resume a testes padronizados, mas incorpora métricas de bemestar psicológico.
No final, a educação em Portugal pode renascer mais forte, mas isso depende da nossa vontade coletiva. Quem quer faz, quem não quer arranja desculpas.
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