Num tempo em que a educação se afirma como o pilar incontornável de qualquer sociedade civilizada, assiste-se, com crescente preocupação, a uma inversão subtil mas devastadora dos papéis. Os professores, outrora guardiães da formação integral dos jovens, parecem cada vez mais absortos nos seus próprios conflitos, nas suas fragilidades pessoais e na defesa intransigente do seu bem-estar individual. O aluno, esse destinatário primordial da missão docente, é relegado a segundo plano, quando não a mero pretexto para justificar reivindicações corporativas. Esta postura não é apenas um equívoco pedagógico: é uma traição ética à essência da profissão.
Nas escolas portuguesas, os sinais são alarmantes e recorrentes. Os conselhos de turma, momentos que deveriam ser dedicados à reflexão profunda sobre estratégias de ensino-aprendizagem, transformam-se, com demasiada frequência, em arenas de desabafo pessoal. Horas preciosas esgotam-se na redacção meticulosa da acta, na escolha cirúrgica das palavras, na negociação de eufemismos que protejam susceptibilidades, na preocupação excessiva com o registo formal que possa servir de escudo futuro. Discute-se pouco ou nada sobre o aluno em dificuldade, sobre as intervenções diferenciadas necessárias para os mais vulneráveis, sobre a articulação curricular que permita verdadeiros percursos de sucesso. O foco desloca-se do pedagógico para o protocolar, do colectivo para o individual. O resultado é previsível: uma mediocridade institucional que se perpetua sob a aparência de rigor administrativo.
Mais grave ainda é o tecido relacional que sustenta esta dinâmica. Observa-se uma desarticulação crónica entre pares, uma falta de cooperação que rai a indiferença ou, pior, a hostilidade velada. Conflitos interpessoais proliferam, muitas vezes alimentados por queixas anónimas que chegam diariamente às direcções escolares e aos órgãos de tutela. Estas denúncias raramente visam a correcção de erros graves ou a protecção dos alunos; servem, na maior parte das vezes, como armas de desgaste moral, instrumentos de desestabilização e ferramentas para ferir a integridade de colegas. O objectivo não é a melhoria do sistema, mas a afirmação de pequenos poderes, o ajuste de contas pessoais ou a preservação de territórios. Tal comportamento, além de eticamente condenável, configura, em muitos casos, autênticos actos ilícitos que minam a confiança institucional e o bom funcionamento das escolas.
A desobediência subtil ou explícita a superiores hierárquicos, a ausência de articulação entre ciclos e departamentos, as discussões estéreis que giram em torno de egos feridos em vez de projectos educativos comuns – tudo isto compõe um quadro de imaturidade profissional preocupante. Os professores, que têm como dever primordial educar pelo exemplo, estão a oferecer aos seus alunos um modelo perverso: o da primazia do interesse próprio, da denúncia covarde, da falta de lealdade institucional e da mediocridade relacional. Não se educa com procedimentos burocráticos nem com discursos grandiloquentes sobre inclusão e equidade. Educa-se, acima de tudo, pela coerência entre o que se prega e o que se vive.
Esta inversão de prioridades não é neutra. Ao priorizarem o seu conforto emocional e a defesa corporativa, os docentes estão, inadvertidamente ou não, a formar cidadãos aptos a reproduzir os mesmos padrões: sociedades fracturadas, onde a colaboração cede lugar à suspeição, onde a denúncia anónima substitui o diálogo franco, onde o bem comum é sacrificado no altar do narcisismo colectivo. Uma geração que aprende com professores mais preocupados com as suas horas extraordinárias, com as suas queixas e com as suas actas do que com o destino dos mais necessitados, é uma geração preparada para a fragmentação social. E essa fragmentação, mais cedo ou mais tarde, voltar-se-á contra os próprios professores, que verão erodir-se o prestígio e a autoridade moral que ainda reclamam.
Como apaixonado pela educação, não posso deixar de alertar para a urgência de uma reflexão profunda e incómoda. É tempo de os professores recuperarem o centro da sua vocação: o aluno como fim último, não como meio ou pretexto. É tempo de substituir a cultura da queixa e do conflito endémico por uma cultura de exigência, cooperação e exemplaridade. Caso contrário, a escola continuará a ser um espelho fiel da mediocridade que tanto denunciamos na sociedade, mas que, afinal, cultivamos no seu próprio seio.
O futuro da educação portuguesa não se joga apenas em novos programas ou mais recursos. Joga-se, sobretudo, na capacidade dos professores de se redescobrirem como modelos éticos, antes de serem meros transmissores de conhecimento. O silêncio cúmplice perante esta deriva é, ele próprio, uma forma de cumplicidade com o declínio.
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