Não é trabalho infantil. É educação que forma cidadãos capazes.

cruzei-me com uma cronica de Álvaro Covões na SIC Notícias, que dizia o que muitos preferem não ouvir: na Suíça, muitos jovens começam a estagiar aos 14 anos em hotéis, indústrias e empresas. Como professor e investigador, alinhado com esta afirmação, vejo nela não um escândalo, mas um espelho do que Portugal teima em não aprender.

O modelo suíço, o sistema dual, não empurra crianças para fábricas exploradoras. Combina escola profissional com formação em contexto real de trabalho. Os jovens passam parte da semana na empresa, aprendendo a fazer, e outra parte na escola, a compreender o porquê. Recebem bolsa de aprendizagem, têm proteção legal rigorosa, horários limitados e acompanhamento. A escolaridade obrigatória termina por volta dos 15-16 anos; a partir daí, cerca de dois terços optam pela aprendizagem em uma das cerca de 250 profissões reconhecidas. O resultado? Taxas de desemprego jovem entre as mais baixas da Europa, jovens que saem preparados, com dignidade e caminho aberto, seja para o mercado, seja para estudos superiores mais tarde. O sistema é permeável: quem começa por uma via profissional pode, depois, subir de nível.
Em Portugal, o ensino profissional continua, em muitos círculos, a ser tratado como a via dos que “não dão para estudar”. Como se a inteligência prática fosse de segunda categoria. Como se o saber fazer com as mãos, com responsabilidade e contexto real, fosse inferior ao decorar para o exame. O resultado está à vista: jovens que terminam o secundário sem saber o que querem, sem experiência de responsabilidade, sem contacto com a realidade do trabalho, e depois descobrem o desemprego ou a precariedade. Ou partem.

Chamar “trabalho infantil” a estágios formativos bem enquadrados é confusão deliberada ou preguiça intelectual. A Convenção 138 da OIT exclui expressamente o trabalho que faz parte de programas de educação ou formação profissional, desde que regulado e que não prejudique a saúde, o desenvolvimento ou a frequência escolar. O que a Suíça (e a Alemanha, e a Áustria) faz não é explorar menores. É formar jovens em ambiente real, com regras, tutores e objetivos educativos. Trabalho infantil é outra coisa: horas excessivas, tarefas perigosas, ausência de escola, exploração económica pura. Confundir as duas é injusto para as crianças que realmente sofrem e é prejudicial para os jovens que precisam de caminhos concretos.

A educação em contexto real não rouba a infância. Dá-lhe sentido. Um jovem de 14 ou 15 anos que, em condições controladas, ajuda num hotel, numa oficina ou numa fábrica, aprende pontualidade, responsabilidade, trabalho em equipa, valor do esforço e respeito pelo cliente ou pelo produto. Aprende que o erro tem consequências e que o acerto gera orgulho. Isto não se ensina só em sala de aula. A sala de aula sozinha, por mais bem-intencionada, produz muitas vezes jovens teoricamente preparados e praticamente desorientados.

Portugal precisa de olhar para estes exemplos sem o complexo de superioridade moral que confunde proteção com isolamento. Proteger um jovem não é mantê-lo eternamente num casulo escolar. É dar-lhe ferramentas para navegar o mundo. O ensino dual, quando bem feito, faz exatamente isso: liga a escola à vida, a teoria à prática, o indivíduo à sociedade produtiva.

Enquanto insistirmos em tratar qualquer contacto precoce com o trabalho como suspeito, continuaremos a formar gerações que chegam aos 20 anos sem ter experimentado a responsabilidade de um compromisso real. E depois admiramo-nos com o desemprego, a falta de mão de obra qualificada e a emigração dos mais capazes.

Covões tem razão. Não porque a Suíça seja perfeita, mas porque o seu modelo parte de uma premissa simples e esquecida: a educação deve preparar para a vida, não apenas para mais educação. E a vida, para a maioria, inclui o trabalho feito com competência, dignidade e propósito. Isso começa, quando bem orientado, mais cedo do que muitos querem admitir.
Quem quer faz, quem não quer arranja desculpas!

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