Uma nota não ensina nada. Está na hora de avaliar de outra forma

 

Lembra-se do que sentiu quando, na escola, recebeu um trabalho de volta com um «13» escrito a vermelho? Provavelmente, a primeira reação foi comparar com a nota do colega do lado. A segunda foi guardar o trabalho na mochila. Ninguém lhe explicou o que estava bem, o que faltava para um «15» ou o que fazer a seguir. A nota era um ponto final.

Foi com esta inquietação que passei os últimos tempos a estudar a avaliação em educação. O resultado é um modelo que proponho e que designo por Reconhecer–Sugerir–Motivar (RSM). Tanto quanto consegui apurar, não existe formalizado com esta estrutura no sistema educativo português, nem noutros. A ideia é simples e cabe numa frase: avaliar não pode ser apenas classificar.

Três gestos, uma só avaliação

Reconhecer. Dizer ao aluno, com verdade e com precisão, o que foi feito: o trabalho, o esforço, os recursos que mobilizou. Um «muito bem» genérico não chega. É preciso nomear o que foi bem conseguido.

Sugerir. Indicar caminhos concretos para melhorar, seja nos meios, nos métodos ou nos processos. Um aluno que sabe o que fazer para chegar ao nível seguinte deixa de adivinhar o que o professor quer.

Motivar. Garantir que a avaliação não deixa o aluno a desistir. Quem sai de uma avaliação sem vontade de tentar outra vez perdeu o essencial, mesmo que a nota estivesse tecnicamente certa.

Não é só intuição

Para testar a ideia, fiz uma revisão sistemática da literatura científica de 2017 a 2025, com 20 publicações, nove delas meta-análises ou revisões sistemáticas. O quadro que emerge é claro. O feedback tem, em média, um efeito relevante na aprendizagem (d = 0,48), mas muito desigual: funciona bem quando diz ao aluno como está a ir e qual é o passo seguinte, e funciona mal quando se fica pelo elogio vago ou pela nota. Acresce que o feedback só serve se o aluno o compreender, o aceitar e quiser agir sobre ele. A motivação não é um bónus. É condição para a avaliação funcionar.

O que muda na sala de aula

Este modelo não pede que se acabe com as notas. Pede que deixem de andar sozinhas. Imagine um trabalho com 14 valores acompanhado de três frases: o que revelou de esforço e qualidade, o que precisa de ajustar para subir de nível e porque é que o aluno está bem encaminhado para o conseguir. Com critérios conhecidos desde o início, o aluno passa de espetador a participante da sua própria avaliação.

Porque defendo que Portugal o adote

Porque a mudança é pequena e o potencial é grande. Não exige novos programas nem equipamentos, exige um outro olhar sobre o momento da avaliação. Combina-se com a nota, com a menção qualitativa, com qualquer ciclo de ensino, do básico ao superior. E responde a uma pergunta que todos os alunos fazem em silêncio: «e agora, o que faço com isto?»

Sou honesto quanto aos limites. O RSM é, por agora, uma proposta fundamentada, ainda sem validação empírica, e a função Reconhecer é a que mais precisa de investigação direta. Por isso mesmo, quero ver escolas e professores portugueses a experimentá-lo e a avaliá-lo. Se a educação em Portugal quer alunos que aprendem e não apenas alunos que são classificados, este é um bom primeiro passo.

Avaliar bem é reconhecer, sugerir e motivar. Experimentemos?

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